ESTUDANTES CIGANOS/AS SUPERAM DESIGUALDADES EDUCACIONAIS E SE TORNAM MESTRES/AS E DOUTORES/AS

Atualizado: 27 de mai.



Na primeira reportagem da série “Desigualdades na educação formal dos Povos Ciganos no Brasil: desafios e perspectivas”, publicada neste portal na última sexta-feira (13) [leia a matéria aqui: [https://www.educacaoejustica.com/post/estudantes-ciganos-as-denunciam-desigualdades-da-educa%C3%A7%C3%A3o-formal-no-brasil]projetei luz para as histórias, origens, tradições e quem são os Povos Ciganos Brasileiros, iluminando os caminhos de estudantes ciganos/as que denunciaram a negação do direito de matrícula nas escolas, a ausência nos livros didáticos e nos planos pedagógicos escolares, a invisibilização, o desconhecimento generalizado, as situações de preconceito, discriminação, exclusão e evasão escolar, dentre outras questões proeminentes que os/as perseguem nas estradas da escolarização. Nesta edição lançarei o foco para estudantes ciganos/as que superaram as desigualdades educacionais, ingressaram na Universidade e tornaram-se mestres e doutores no Brasil.


POVOS CIGANOS, UNIVERSIDADE E AÇÕES AFIRMATIVAS


Os Povos Ciganos brasileiros, historicamente excluídos dos espaços de formação cidadã e de poder, começaram a ser integrados nas políticas afirmativas (cotas) das Universidades brasileiras apenas a partir de 2018, apesar de Lei nº 12.711 - conhecida como Lei de Cotas - ter sido instituída em 2012.


De acordo com informações publicadas no portal do Ministério da Educação, a Lei de Cotas determina às universidades, institutos e centros federais a reservarem para candidatos cotistas metade das vagas oferecidas anualmente em seus processos seletivos. Conforme o texto da Lei de Cotas, são considerados cotistas todos os candidatos que cursaram as três séries do ensino médio em escolas públicas, bem como pessoas que concluíram o ensino médio por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

A Lei de Cotas preconiza que, dentro do sistema de cotas, metade das vagas deverá ser preenchida por estudantes com renda familiar mensal por pessoa igual ou menor a 1,5 salário mínimo e a outra metade com renda maior que 1,5 salário mínimo. Há, ainda, dentro de cada categoria de renda, vagas reservadas para pretos, pardos, indígenas, pessoas com deficiência, pessoas trans e travestis, além de refugiados e outros segmentos. As distribuições dessas vagas ocorrem em conformidade com a proporção dos referidos segmentos/grupos étnicos na unidade da federação onde está situado o campus da universidade, centro ou instituto federal.


No caso dos Povos Ciganos, a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) foram as pioneiras na ação de inclusão dos Povos Ciganos em suas políticas de Cotas. Posteriormente, foi a vez da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) - esta aprovou resolução em benefício dos/as estudantes ciganos em 2020. Já no início deste 2022, após intensas lutas, manifestações e reivindicação por parte dos Movimentos Sociais Ciganos em conjunto com Movimentos Negros e Indígenas, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) dos Campus dos Malês – BA, Campus da Liberdade, e das Auroras – no Ceará, também se abriram para estudantes de etnias ciganas em seus sistemas de cotas.


Em sintonia com a pesquisa doutoral defendida por Lenilda D. Perpétuo, professora-doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), autora da tese “Quantas pedras no meio do caminho? Representações sociais acerca dos Povos Ciganos e a relação com o trabalho e a educação escolar na Etnia Calon” (2021), 116 estudantes ciganos ingressaram na UNEB, em diversos cursos de bastante relevância, até 2021. “Quando existem os espaços e a possibilidade de adentrá-los, os/as ciganos/as conseguem ocupá-los. Embora compreendamos que para gerar demandas para o acesso dos/das estudantes ciganos/as ao ensino superior, necessita-se ainda de criar condições favoráveis para que a população cigana sinta-se segura, motivada e pertencente ao espaço da escola pública plural, que possam acessar, permanecer e ser inclusa de modo efetivo para que consigam concluir seus percursos na educação básica, justificando assim a geração de demandas das Políticas Públicas de Ações afirmativas para o acesso às universidades públicas do Brasil”, defende.


Concordante a Lenilda D. Perpétuo, a Lei de Cotas “é um exemplo de grande avanço no reconhecimento e valorização das diferenças socioculturais e na superação da desigualdade de acesso à escolaridade por todas e todos”.


Pós-Graduação


No que tange à Pós-Graduação, espaços nos quais a prerrogativa de autonomia e estratégias encontram menos barreiras e burocracias para a implementação, temos os exemplos pioneiros dos Programas de Pós-Graduação (PPG) em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGAS/UFRN); e PPG em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade – (PPGEISU/IHAC-UFBA).


Estas, através de Resoluções documentais de 2021, incluíram estudantes ciganos nas políticas afirmativas, seguidas da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), esta igualmente aprovou a garantia de cotas para os Povos Ciganos em todos os cursos de pós-graduação. Curiosamente, o mesmo não ocorreu para acesso aos cursos de graduação. Questionei via e-mail à UFPE se nos cursos de graduação os/as estudantes ciganos não são beneficiados pelas ações e afirmativas e o porquê da inclusão apenas nos PPGs. Após encaminhamento da questão para diversos setores da Instituição, não emitiram justificativa. Outras Universidades, a exemplo da Federal de Juiz de Fora (UFJF) promovem cotas para Povos de Comunidades Tradicionais, incluindo-se, por vezes, os Povos Ciganos embora sem nominar.


Coadunando com informações e pesquisas compartilhadas através do Coletivo Brasileiro de Estudos Ciganos (COBEC), e disponíveis em plataformas de buscas na internet, é possível pressupor que de um total aproximado de 130 universidades entre federais e estaduais, cerca de apenas oito instituições abrangem os Povos Ciganos e seus estudantes nas políticas de ações afirmativas somando-se o acesso aos cursos de graduação ou PPGs, ou seja, um percentual indecoroso de 6%. No que isso se reflete?


É irrisória a quantidade de ciganos/as com títulos de mestrado e doutorado no Brasil, vez que todos os problemas enfrentados durante o percurso da educação básica se multiplicam quando se trata de acesso ao ensino superior, notadamente ao ingresso nas universidades. Isso sem mencionar os entraves da permanência, assunto que praticamente não se fala nas pesquisas científicas e na grande mídia, já que sem oportunizar a admissão não há porque problematizar a continuação.


Contudo, não faltam exemplos, apesar de raros, de estudantes ciganos que superaram os desafios das desigualdades educacionais, driblaram os obstáculos inúmeros nos processos de escolarização, e se tornaram mestres/as e doutores em diversas áreas do conhecimento. Sim, os Povos Ciganos do Brasil têm os/as seus/as mestres e doutores para se orgulhar, embora seja possível contar a quantidade nos dedos das mãos.


O primeiro professor-doutor cigano do Brasil


Um desses exemplos exitosos da educação formal cigana é o baiano Jucelho Dantas da Cruz, o primeiro cigano mestre e doutor brasileiro. Nascido em 1962, pertencente a etnia Calon, ele concluiu formação superior em Engenharia Agronômica pela UFBA, em 1990, tornou-se mestre em Ciências Agrárias também pela UFBA em 1995, e doutor em Ciências Biológicas com área de concentração em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Rio Claro) no ano de 2006. É professor do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) desde 1997, sendo considerado um dos expoentes do ativismo cigano brasileiro, e um dos responsáveis pela implantação das cotas para ciganos nas Universidades baianas.



O primeiro cigano doutor do Brasil teve todas as vivências possíveis dentro do mundo cigano, desde o nomadismo ao sedentarismo - modo como grande parte dos ciganos vivem atualmente. Até os seus 15 anos, a família de Jucelho fora andante. Viviam no eixo das cidades de Santo Amaro, Candeias e São Sebastião do Passé, triângulo baiano onde seu pai – Jaconilho Marques da Cruz, comercializava animais de carga, atividades que se estendiam também para o polo do Sul da Bahia, nas cidades Ubaitaba, Camamu e Gandu. Nesses lugares, havia extrema necessidade de animais para labuta no comércio até por volta dos anos 2000, quando as máquinas começaram a substitui-los. Com isso, seus familiares passaram a negociar com carros e imóveis, o que motivou a família a se fixar em um único lugar.


Alfabetização - Durante o período nômade Jucelho e o seus viviam em regiões mais afastadaos grandes centros, fator que dificultava sobremaneira o acesso à escola, somados ao fato de que naquela época davam pouca importância para a escolarização, isso por conta da lida diária nas atividades laborais do campo. A maior parte dos seus familiares não frequentavam a escola, porque passavam pouco tempo nos lugares, o que tornava impossível nessas permanecer. “Mas meu pai gostava muito da educação, e apesar de analfabeto, ele queria demasiado que os filhos estudassem, e isso foi um dos motivos de fixarmos residência em Ibirapitanga, na Bahia. Foi para colocar seus filhos para estudar, motivo que era rechaçado pelos outros ciganos que não gostavam da ideia de pôr os filhos para estudarem porque achavam que iam perder os traços culturais e se desgarrar, e meu pai dizia que não queria para os filhos a sua mesma sina, a mesma forma de vida permeada por necessidades inúmeras que atravessavam costumava passava”, inicia-se à narrativa de Jucelho.


Já em meados de 1960 seu avô ficou doente, e o pai Jaconilho colocou os quatro filhos mais velhos para estudar na cidade de Ubatã-Bahia. Foram esses que começaram a ensinar e a alfabetizar os demais dentro das barracas. Desta forma, Jucelho foi alfabetizado pelos irmãos que haviam ficado apenas dois anos em uma escola, assim ele aprendeu a ler e a escrever. A partir de 1977, seu pai fixou residência de vez e os filhos passaram a estudar regularmente. “Eu sempre tive um interesse muito grande em estudar. Os outros iam mais forçando a barra e por influência de meu pai que pedia muito para irem à escola, mas iam meio contrariados, enquanto eu demonstrava muita vontade, não sei porque, mas acho que era a vontade de crescer pois via muito isso em meu pai, aquela vontade pulsante que tinha de ver seus filhos estudarem, era uma motivação para que eu continuasse”, salienta.


Pioneirismo- Até mais ou menos os anos 2000 ele conta que não tinha noção de que era um dos primeiros ciganos, senão o primeiro, a ingressar e concluir o nível superior. A partir de então passou a conhecer mais a realidade de seu povo nos planos estadual e nacional. “É um orgulho enorme ser um dos pioneiros da escolarização formal superior, mas não vejo grande vantagem porque o desejo é de que tivessem outros tantos, centenas, milhares de ciganos percorrido essa trilha, talvez, assim, os caminhos escolares para meu povo teriam sido menos árduos desse período para cá. Tenho orgulho por um lado, e tristeza por outro, por saber que tão poucos ciganos se graduaram até então, e só a partir de 1990 começamos a ver mais ciganos nas universidades, mas ainda somos poucos. É um sentimento agridoce, estranho, um misto de alegria e tristeza”, desvenda.


Apesar de ser reconhecido como um dos expoentes das lutas ciganas pelo direito à educação formal, Jucelho expressa que gostaria de inspirar ainda mais outros/as ciganos/as a ocuparem espaços de formação. “Nós ciganos/as de forma geral gostamos das coisas ‘para ontem’, é um imediatismo muito grande, de modo que estudar para alguns significa meio que um sofrimento de ficar anos a fio sentado numa cadeira, aprendendo para depois ganhar um salário muitas vezes de miséria. É basicamente isso que imaginam. E como agrônomo não sei se tenho inspirado, talvez se fosse um advogado, médico...[...], mas as pessoas que se inspiraram em mim viram na educação uma válvula de escape da forma preconceituosa de tratamento que a sociedade e as autoridades brasileiras dão para a gente. O saber entrar e sair, me dirigir às autoridades competentes para sanar quaisquer tipos de problemas é um dos maiores ganhos que beneficiam a minha comunidade”, elucida.


O tratamento na Universidade - Se nas escolas a luta de Jucelho para acessar e permanecer era árdua, na universidade pouco coisa se modificou. “Parecia que um ‘E.T. ‘estava ali, um ser ‘extraterrestre’ ou algo do tipo porque para demais estudantes e professores era muito estranho ter um cigano dentro da Universidade. O curso de Agronomia que fiz na UFBA, no campus de Cruz das Almas, tinha muita tradição na questão dos trotes, e eu me revelei contra isso porque não suporto ver ninguém sendo humilhado e tratado com desdém por outras pessoas, quanto mais a minha pessoa mesmo”, recorda.


Lidar com o trote acadêmico e agir para não ser vítima de situações vexatórias foi um dos primeiros desafios de Jucelho na Universidade. “Então me rebelei contra isso, e quando meus irmãos foram comigo na Universidade para conhecer o alojamento em que eu iria ficar, nos deparamos com alguns veteranos que queriam me pegar para cortar meu cabelo. Meus irmãos ficaram assustados com aquilo pois não tinham costume de ver esse tipo de coisa. E foi uma grande confusão. Eles, então, puxaram uma arma e disseram que se cortassem o meu cabelo, eles iriam cortar o do pessoal ‘na 12’ ou então ‘no 38’, e aquilo criou grande surpresa entre todos”, recorda.

Ao rememorar um dos episódios marcantes do início da trajetória universitária ele pontua que seu irmão gritou para todos que ele tinha lutado muito para estar ali, e que não tinha ido até lá “para desistir agora! ”. Após trazer à tona esta lembrança, Jucelho cantarolou um trecho da música a seguir, canção de nome “Até o fim”, dos Engenheiros do Hawaii, assim diz:

“Não vim até aqui pra desistir agora Entendo você se você quiser ir embora Não vai ser a primeira vez nas últimas 24 horas Mas eu não vim até aqui pra desistir agora

Minhas raízes estão no ar Minha casa é qualquer lugar Se depender de mim, eu vou até o fim

Voando sem instrumentos Ao sabor do vento Se depender de mim, eu vou até o fim

Até o fim

Não vim até aqui pra desistir agora Entendo você se você quiser ir embora Não vai ser a primeira vez em menos de 24 horas A ilha não se curva noite adentro, vida afora

Toda vida, o dia inteiro Não seria exagero Se depender de mim, eu vou até o fim

Cada célula, todo fio de cabelo Falando assim parece exagero Mas se depender de mim, eu vou até o fim

Até o fim

Não vim até aqui pra desistir agora Não vim até aqui pra desistir agora Eu não vim até aqui pra desistir”


“... E foi dessa forma que a universidade passou a saber que ali no campus tinha um cigano. ‘um valentão , - imagina eu valentão?!’, e que ninguém podia mexer comigo senão iria se ver com a vingança dos ciganos. Essa coisa se espalhou, o meu apelido naturalmente ficou sendo ‘cigano’, assim fiquei conhecido, e as pessoas queriam saber quem eu era para não dar o tal trote. Isso foi no início, mas com o passar do tempo perceberam que as coisas não eram como imaginavam. Eu apenas não concordava com a violência dos trotes, vendo pessoas sendo atiradas em poças de lama, humilhação com urina e essas coisas, o que eu jamais concordaria. Acabei ficando famoso! ”, rememora o Jucelho aos risos, acompanhado de minhas gargalhadas de auto identificação com esse tipo de situação.

Foto: Secult/Ba


Jucelho prossegue a narrativa pontuando que sua presença nos campi universitários possibilitou que estudantes e equipes pedagógicas pudessem acessar informações e ter mais conhecimentos acerca dos Povos Ciganos. “Na universidade me viam como um ser ‘exótico’, diferente, mas isso atraía também olhares compreensivos e carinhosos por parte daquelas pessoas que compreendem a necessidade de uma sociedade inclusiva e igualitária para todos os segmentos sociais que apresentam carência e dificuldades de sobrevivência. Mas na Universidade eu pude demarcar a cultura cigana e propagar conhecimentos acerca de nós, o que é muito raro! A minha presença levava as pessoas a buscarem informações sobre nosso povo cigano. Participei e atuei no Movimento Estudantil lutando por políticas de inclusão, principalmente de permanência, e quando vim para a UEFS já estava enraizada em mim a luta pela garantia de direitos e continuei nessa mesma linha. É dessa forma que temos caminhado dentro da Universidade, sendo parte de Comissões de avaliação e verificação das políticas de cotas, enfim, contribuindo para que os ciganos tenham oportunidade na escola básica e na Universidade”, descreve.


O professor cigano - Após a conclusão da graduação, de passar pelo mestrado e doutorado, Jucelho finalmente “acampou” na UEFS através de concurso público em 1997, desde então leciona por lá, onde também é (re)conhecido como cigano, “pois faço questão de me identificar como tal, esta é uma forma de autoafirmação do povo cigano perante a sociedade. Isso rende a sensação, algumas vezes, de que as pessoas estão estarrecidas, mas ao mesmo tempo compreendem e passam a me perguntar sobre as nossas rotinas. Isso tem contribuído para mudar a forma como a sociedade nos enxerga, pelo menos, dentro do ambiente acadêmico”, considera.


Na UEFS ele colabora através de constantes participações em disciplinas de outros professores que costumam acioná-lo para problematizar em aulas questões relativas aos Povos Ciganos, Comunidades e Povos Tradicionais. Jucelho ocupou, ainda, importantes funções públicas: esteve diretor da Associação de Docentes da UEFS (ADUFS) por três períodos nos quais pôde disseminar o seu pertencimento cigano e assim seu nome foi sendo massificado dentro da Instituição. O professor-doutor cigano acumula em seu baú relevantes participações em comissões de trabalho representando os Povos Ciganos junto à Pró-Reitoria de ações afirmativas da Universidade. “Sempre que me apresento nas turmas faço questão de falar de onde venho, das minhas raízes e do preconceito generalizado contra o meu povo”, salienta ele.


Desigualdades – Ao ser questionado se há desigualdades na escolarização formal dos Povos Ciganos, Jucelho é categórico: “Sem dúvida há imensas desigualdades na escolarização formal dos povos ciganos, assim como para todos os povos de Comunidades Tradicionais. Ainda somos vistos como estranhos no ninho, nós ciganos, os Indígenas, os ribeirinhos, chegamos na Universidade, ou seja, lá aonde for, e ainda somos vistos como seres exóticos, como pessoas que não eram para estar ali, e isso causa desconforto e indignação naqueles que superam os abismos para frequentar esses ambientes. Consequentemente, muitos não se adaptam à escola e acabam evadindo”, esclarece.


Permanência - Jucelho ressalta que atualmente existem algumas políticas públicas voltadas para a permanência estudantil dos ciganos nas universidades, caso da UEFS. Segundo analisa, políticas de permanência são fundamentais na medida em que são disponibilizados os mecanismos que permitem estudantes de Comunidades Tradicionais continuarem a estudar até concluir o ciclo na Universidade. “Nossa escolarização ainda precisa ser mais inclusiva, precisa ter uma certa equidade nas condições de ensino porque tem muitas pessoas que não conseguem acompanhar o desenvolvimento do ensino, pois muitas vezes vêm de escolas públicas deficitárias e precisam de ajuda e acolhimento para permanecerem na escola e/ou universidade, e assim concluírem as suas formações. Nós que fazemos parte de um povo considerado ‘diferente’ sentimos a exclusão por parte dos que são majoritários, portanto, a maior parte não se sente atraída por ambientes como esses, o que é absolutamente compreensível”, explana.

Ele propõe que é essencial incluir conteúdos pedagógicos sobre os Povos Ciganos nas disciplinas que tratam do Social e das Ciências Humanas, vez que estas têm como obrigação ocuparem-se dos/as estudantes ciganos/as bem como dos demais Povos de Comunidades Tradicionais. “Isso deve acontecer para nos sentirmos abraçados, acolhidos e realmente incluídos. Já imaginou um cigano chegar a uma escola ou Universidade pública e lá observar a professora (o) por uma questão de currículo estar falando da formação do povo brasileiro e incluir nessa formação os ciganos? ”, reflete. E continua “então os ciganos irão ser vistos com outros olhos, um olhar mais carinhoso, de quem está incluído na sociedade brasileira, e não excluído como aconteceu ao longo da história, como até hoje não se vê ciganos nas escolas e universidades de modo geral, até falam de Comunidades Tradicionais e superficialmente dos ciganos, quando se fala. É necessário contar as nossas histórias para nos orgulharmos de fazer parte da sociedade”, reflete.


Luta por igualdade – A luta por igualdade de oportunidades levou Jucelho a interferir em conquistas relevantes para os Povos Ciganos. “Ao longo da história sempre a educação serviu a uma classe mais abastada, e nunca para as classes de menor poder aquisitivo. Então, sempre tivemos de buscar através do ativismo alguma condição, alguma inclusão para sermos hoje considerados Povos Tradicionais pelo Estado. Nas universidades lutamos pelas cotas e com muita luta galgamos poucas, mas importantes conquistas no que tange à escolarização dos ciganos e à busca por alguma igualdade”, avalia.


Tradições enfrentam menor resistência nas universidades – Acerca das tradições ciganas, a exemplo do nomadismo, uso das vestes coloridas e brilhosas, Jucelho lamenta o fato de que algumas escolas ainda tem algum tipo de imposição, mas que nas universidades e faculdades esta questão não chega a ser impositiva como acontece nas escolas. “Nas Faculdades e universidades a resistência é menor porque seria vergonhoso e contraditório alguém se posicionar contra os costumes nesse ciclo de formação. Mesmo assim não se foge de alguns preconceitos e formas de discriminação dentro das faculdades e universidades”, afirma.



Por fim, o primeiro cigano-doutor do Brasil aponta para um caminho de esperanças nas estradas da formação superior. “Ainda percebo por parte de muitos alunos os olhares de surpresa de forma positiva por ter um cigano em sala, isso quando veem com bons olhos, e em outros alunos alguns olhares de desprezo, de desconfiança e até de subestimação, mas hoje estamos avançando mais até por conta desse enriquecimento das instituições que tem uma parcela significativa da população carente dentro dos seus muros, ou seja, um enegrecimento das Universidades com as políticas de cotas, com a presença de cada vez mais estudantes indígenas e de outros segmentos também. Infelizmente, nós ciganos ainda somos raros nas universalidades, mas acredito que a tendência é aumentarmos a ocupação, por onde passamos costumamos levar nosso bando e não tem sido diferente no que se refere a ocupação das universidades”, prospecta Jucelho, ao vislumbrar o futuro dos Povos Ciganos nos campus das universidades brasileira: “Temos que pensar em frequentar as escolas e Universidades e nos inserimos nesses ambientes escolares e acadêmicos para mudarmos aquilo que nos fere e dificulta nossa ocupação, os acessos e a permanência. Temos que galgar degrau por degrau até chegarmos em nossos objetivos”, arremata.


CLAUDIA NUNES SANTOS: “A CIGANA ESTUDADA”



“Negociar é uma arte que aprendemos com os nossos antepassados, com nossos pais e avôs. Precisamos usar essa arte, e fazer a nossa barganha, a nossa negociação da maneira que nós sabemos fazer, para ocupar e, por conseguinte, transformar todos os espaços que insistem em nos negar. Tenho esperanças de que muito em breve, não serei mais uma das poucas ciganas doutoras do Brasil porque não faz sentido se outras tantas não vierem comigo, porque as lutas só ganham força e sentido no coletivo. Espero que cada vez mais as portas das universidades sejam abertas, e se não abrirem, nós as derrubaremos, chegaremos em comboios, pois foi assim que sempre caminhamos e conseguimos resistir até aqui! ”


Trago agora o exemplo da “cigana estudada”, assim costuma ser referenciada a cigana Claudia Nunes Santos, da etnia Calon. Após muitas andanças - sempre em movimento - ela está a passar algum tempo em Aracaju - Sergipe. Com uma extensa estrada acadêmica, é bacharela em Biologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), obteve o título de mestra em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi/UFPA, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Doutorou-se em Biologia e Genética Molecular pelas Universidades Federal do Pará e Bremen Universität, sendo bolsista da CAPES e Deutscher Akademischer Austauschdienst (DAAD). Realizou o Pós-doutorado em Biotecnologia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), atuou como Professora do Programa de Atualização de Professores de Biologia do Estado do Pará (convênio SEDUC/SECTAM) de 1997 a 1998. Foi Professora da Faculdade de Biologia no Instituto de Estudos Costeiros/UFPA entre 1998 e 2019. E atualmente é Professora Associada no Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes da Amazônia no Instituto de Humanidades/UFPA/Bragança, e Pós-doutoranda em Etnobiologia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).


Com esse itinerário formativo de orgulhar seu povo cigano, a prima Claudia se considera uma contadora de histórias inata, habilidade que diz ter herdado do seu pai, Francisco Vieira dos Santos. Foi somente através das histórias contadas por ele que conheceu seu avô e bisavôs paternos, que já haviam “encantado” quando ela nasceu. De igual modo conheceu as histórias do lugar onde nasceram, após a parada do grupo calon vindo das Minas Gerais. Hoje é uma guardiã dos saberes ancestrais que repassa para as novas gerações da família, vez que também guarda memórias das avós, dos bisavós maternos, dos muitos tios, tias e primos - em sua maioria analfabetos - com quem convivia na comunidade durante as férias escolares.



Entraves da alfabetização - Filha de sergipanos que cursaram apenas as séries iniciais ela se descreve como “Uma criança que mesmo em um contexto no qual a escola não era presente - não tínhamos livros ao nosso redor - mas eu queria estudar, queria ir para a escola, queria ler. E na primeira escolinha que fui descobri que eu queria ler, e depois que eu queria estudar para me tornar uma ‘cigana estudada’ como dizem as pessoas da família. Mas na época não tinha educação infantil no interior de Sergipe, então, como meu pai foi um desejoso de ir à escola e ele não podia porque tinha que ficar na lida dos animais, ele chegou a ir mas frequentou pouco, e guardou esse desejo, quando eu manifestei interesse ele se movimentou e conseguiu uma professora, uma moça na comunidade que dava reforço escolar e ajudava as crianças na casa dela mesmo. Era uma casa de pau a pique. Recordo que uma vez choveu muito e a casa caiu, a minha escola desabou, mas ela conseguiu uma sala de uma outra casa emprestada para continuar, e lá eu ficava prestando atenção enquanto ela alfabetizava as crianças. Quando chegava em casa eu lia os rótulos, as latas, tudo que estivesse por perto, e assim fui me alfabetizando e daí não parei mais”, alvorece.


Sua mãe Marli Rocha Nunes, na condição de matrigestora cuidava de cinco filhos. “Nossa alimentação era a preocupação dela, recordo ela falar muito da importância de nos alimentarmos bem para ficar inteligente e ter sucesso nos estudos. Sempre que podia fazia bordados e vendia para as mulheres da vizinhança para ajudar na renda familiar. Ela e meu pai sempre manifestavam acreditar que nós todos teríamos uma vida melhor a partir de que conseguíssemos permanecer na escola, e com isso também poderia dar uma vida melhor para eles. Com o tempo meus pais se mudaram para a capital - Aracaju, para que pudéssemos estudar. Fui aluna de escolas públicas e da Universidade pública, não parei nunca de estudar, fui emendando, fiz o mestrado, doutorado e depois dois pós-doutorados”, conta.


Representatividade - Para ela, ser uma cigana-doutora representa “Uma conquista não apenas minha, mas de toda a família, um enriquecimento. Percebo nas falas e atitudes de minha família esse orgulho por eu estar onde estou. Significa essa mudança na vida como ser espelho para as gerações que se seguiram saberem que tinham e têm a possibilidade de estudar e igualmente acreditar que podem conquistar os seus direitos, para além do direito à educação. Inspirar outros/as ciganos/as, demonstrar que é possível estudar, frequentar a escola sem deixar a nossa cultura, porque mesmo vivendo no meio de ‘gajon’ (não ciganos), convivendo a maior parte do tempo nesses espaços, eu nunca me afastei, nunca deixei a minha origem, ainda que ela estivesse em mim silenciada, mas estava comigo, sempre! ”, enfatiza.


Com sua oralidade cadente e cristalina, a cigana estudada segue a narrativa: “O medo, o receio que os ciganos têm de ‘deixar de ser ciganos’, ou seja, o medo de sermos apagados para estarmos nos espaços não ciganos começa a ser dissolvido quando a gente estuda e vive de forma que demonstra que é possível adquirimos novos conhecimentos sem abrir mão de todos os saberes e práticas que seguem sendo importantes na cultura cigana, porque tradição também evolui. A principal lição que carrego e que tenho de várias maneiras apresentada para os/as ciganos/as é a de que nós podemos ocupar esses espaços, e é desses lugares que mudamos a sociedade por dentro, levando o conhecimento sobre o nosso povo, falando da nossa verdade, contando a nossa história”, avigora.


Contribuição - Cláudia Nunes tem contribuído em diversas lutas dos Povos Ciganos com uma atuação destacada junto às principais lideranças ciganas femininas de diferentes associações e lugares do Brasil. Ela oferta seu apoio para a formação política dessas mulheres, no empoderamento feminino, e com auxílio técnico para a formulação de propostas de políticas públicas, ações de divulgação da cultura sobretudo no enfretamento à apropriação cultural “que ocorre no Brasil de uma maneira muito singular”, avalia.


Ela conta que tanto na escola quanto na Universidade sempre tivera comportamento introspectivo e focado nos estudos. “Recolhida no canto, sem querer afetar e ser afetada. Hoje falo, me expresso e me afirmo com mais desenvoltura, com mais ênfase, mas não foi sempre assim. Romper esse silêncio foi um processo longo e até doloroso, fiz isso ao longo de anos de convivência com outros povos tradicionais, aprendi muito, especialmente com os povos originários e quilombolas quanto a esse processo de romper com o silêncio. Eu era e ainda sou nesses espaços, na Universidade, ao mesmo tempo em que elogiada pelo desempenho e capacidade, sou alvo de desconfiança e estranheza pelos pares. Arrisco afirmar que a totalidade dos estudantes ciganos são muito dedicados e comprometidos. Eu era e sou muito dedicada porque nunca deixei de ser estudante, sou uma eterna estudante. Eu sigo nos processos de formação continuada e me coloco no lugar de estudante em diferentes momentos”, evidencia.


Em sua percepção, na Universidade, ao mesmo tempo em que há o reconhecimento ainda sente e sempre sentiu ao longo da vida escolar que é diária a luta aguerrida pela garantia das oportunidades, além de pagar um alto preço pela autoafirmação. “É muito mais cômodo ficar ‘escondida’, abafar o pertencimento, por outro lado o compromisso grita na alma e nos move para assegurarmos o nosso lugar de fala”, frisa.


Desigualdades – Em sua análise, há muitas desigualdades na escolarização formal dos povos ciganos, desde o acesso, passando pelo apagamento identitário e cultural, e pela discriminação. “Tudo isso interfere na permanência, porque para os ciganos são oferecidos dois caminhos: o apagamento - que é uma injustiça social; ou a discriminação – que é uma outra injustiça! E como mudar isso? Como tornar a escolarização formal dos povos ciganos mais inclusiva? ”, questiona e segue: “tenho apostado muito e acreditado na mudança a partir da ‘reforma do pensamento dos professores’, como nos ensinou o sociólogo Edgard Morin. Não adianta a gente mudar currículo, mudar a escola e a Universidade como um todo, se não reformarmos o pensamento dos educadores”, fundamenta.


A professora-doutora cigana segue justificando que: “precisamos disso para que os professores nos conheçam, porque ninguém reconhece e respeita o ‘outro’ que não conhece. Os educadores precisam conhecer e reconhecer as culturas ciganas. Não basta apenas inclusão de conteúdo nos currículos escolares, formar professores é tão importante ou mais do que reformar currículo porque nós educadores podemos usar as nossas autonomias em salas de aula para incluir verdadeiramente os/as estudantes ciganos. Além disso, reparar as políticas de educação é fundamental para incluir a presença dos povos ciganos tanto na história do Brasil quanto na sociodiversidade dos espaços escolares, com todas as contribuições que podemos acrescentar na construção de conhecimentos acadêmicos”.


DesafiosClaudia segue apontando os principais desafios que enfrentou para acessar e permanecer nas escolas e Universidades: “Na minha família, como em todas, tínhamos que trabalhar para contribuir para a renda familiar, para garantia das despesas básicas. Enfrentamos muitas vezes a falta de incentivo por conta do não esclarecimento, do pleno entendimento de como essa formação escolar pode abrir as portas que sempre nos foram fechadas. Essa conscientização de que essas portas existem também para nós ciganos/as, ou seja, o conhecimento dos nossos direitos. E ainda a falta do fortalecimento para que se suprima esse medo de ser engolido pelo mundo não cigano, que é o apagamento materializado. Faltou e falta às famílias ciganas confiar na escola e na Universidade, confiar que não vão distratar, não vão desvalorizar e não vão nos afastar das tradições. Então é preciso que a escola e a Universidade conquistem a confiança das famílias, fortalecendo a ideia de que pretendem educar sem desvalorizar, e ressaltarem a importância de mantermos as nossas tradições, as reconhecendo e as respeitando”, postula.


Para Claudia, de uma maneira geral, as escolas e as universidades não compreendem as especificidades das vidas ciganas. Ela observa que são raras as iniciativas no sentido de compreender as especificidades dessas tradições e considerá-las em todos os processos dentro das escolas e universidades, nas estratégias pedagógicas, e nas relações entre os diferentes sujeitos que as ocupam. “Algumas iniciativas das associações de ciganos através de parcerias com profissionais da educação estão a abrir o diálogo para que essas especificidades sejam consideradas. As tradições não são sequer conhecidas, quiçá valorizadas. Para isso mudar requer a escuta atenta para que possamos suplantar a romantização das tradições por um lado, e a estigmatização por outro lado, precisamos desconstruir essa representação que está posta na sociedade brasileira e inclusive nos espaços que deveriam ser dos conhecedores das culturas”, avalia.


O enfrentamento - ao preconceito e a discriminação foi e é uma constante no itinerário de formação da cigana estudada. “Sempre sofri preconceito nesses espaços, onde quer que se afirme as nossas identidades sempre haverá uma barreira criada. Citando uma experiência vivenciada recentemente na qual fui convidada como palestrante em uma mesa redonda por uma associação científica brasileira: nessa mesa, composta por duas professoras indígenas, duas negras, e dois ciganos, eu e um cigano, para falarmos do racismo e/no ensino superior... fui a última a falar, e as falas que me antecederam foram excludentes, as colegas falavam sobre racismo listando os/as brasileiros/as que são vítimas de racismo, mas não nos incluíam. Então foi um espaço para discutir o racismo no qual eu fui discriminada, fomos discriminados, excluídos dessa lista. E evidentemente tive que mudar o que havia planejado para falar naquele momento porque não poderia sair dali sem rebater, e apontar que isso estava acontecendo exatamente naquele momento, pontuei bem isso na minha fala”, indigna-se.


Oásis- Ela anota que “por outro lado existem alguns oásis, alguns espaços que se abrem, e assim conseguimos nos afirmar, vamos escancarando essas incoerências entre os discursos e as práticas que acontecem, então as pessoas às vezes se colocam como antirracistas sendo racistas. Sempre que uma brecha for aberta precisamos utilizar para escancarar essa triste realidade se quisermos mudá-la”.



A cigana estudada conclui a narrativa no “caminho do esperançar” assim como nos ensina Paulo Freire, o patrono da educação brasileira. “Na condição de estudante ou tentam apagar essa identidade para aceitar a nossa competência, ou seja, você vai ser aceito, assim como a sua competência e a sua autoridade, se abrir mão da identidade. Uma espécie de negociação que é feita o tempo inteiro. Mas negociar é uma arte que aprendemos com os nossos antepassados, com nossos pais e avôs. Precisamos usar essa arte, e fazer a nossa barganha, a nossa negociação da maneira que nós sabemos fazer, para ocupar e, por conseguinte, transformar todos os espaços que insistem em nos negar. Tenho esperanças de que muito em breve, não serei mais uma das poucas ciganas doutoras do Brasil porque não faz sentido se outras tantas não vierem comigo, porque as lutas só ganham força e sentido no coletivo. Espero que cada vez mais as portas das universidades sejam abertas, e se não abrirem, nós as derrubaremos, chegaremos em comboios, pois foi assim que sempre caminhamos e conseguimos resistir até aqui!".


A UFS, instituição em que atua a cigana - doutora Claudia Nunes Santos não compreende os Povos Ciganos nas suas políticas afirmativas para ingresso. "Já estou em diálogo para a inclusão das pessoas ciganas nas políticas afirmativas da UFS" ,sinalizou a cigana estudada.


CIGANO - DOUTOR CONQUISTA PRÊMIOS EM RECONHECIMENTO POR ATUAÇÃO NA CIÊNCIA



“Um cigano que ocupa o papel de pesquisador aberto ao aprendizado e ao diálogo acadêmico-científico, que respeita suas regras e limites, mas sabe de que lado está e deixa isso muito bem explícito: o lado dos ciganos” (SILVA JÚNIOR, 2019, p. 29).


O nome Aluízio de Azevedo Silva Júnior é um dos mais acionados no Brasil quando os assuntos são: saúde, comunicação e a educação dos Povos Ciganos. Isso porque o cigano da etnia calon conquistou o título de doutor pelo Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/ICICT), da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro) tendo realizado Doutorado Sanduíche no Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI) da Universidade Aberta de Lisboa (UAb), financiado pela CAPES. Venceu o Prêmio Compós de teses e dissertações Eduardo Peñuela em 2019, e no mesmo ano recebeu menção Honrosa na Categoria Ciências Humanas e Sociais do Prêmio Oswaldo Cruz de Teses pela pesquisa “A Produção Social dos Sentidos nos Processos Interculturais de Comunicação e Saúde: a apropriação das Políticas Públicas de Saúde para ciganos no Brasil e em Portugal”.


Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT, 2007-2009); Especialista em Cinema, pela Universidade de Cuiabá (Unic), graduou-se em Comunicação Social - Jornalismo (2002) e Ciências Sociais (2006), ambas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). É professor, produtor cultural e cineasta independente, roteirista de vários filmes curtas metragens, diretor do filme "É Kalon - Olhares Ciganos", e do Curta metragem “Manoel Chiquitano”, vencedor do Prêmio Etnodoc 2011 (IPHAN, Petrobrás, Ministério da Cultura) e exibido na TV Brasil.


Atualmente Aluízio presta relevantes serviços na Superintendência Estadual do Ministério da Saúde em Mato Grosso (NEMS/MT), como Chefe da Seção de Apoio Institucional e Articulação Federativa (SEINSF), e orquestra as lutas dos Povos Ciganos do Mato Grosso enquanto assessor para Ciência e Comunicação da Associação Estadual da Etnias Ciganas (AEEC-MT). Com um percurso acadêmico que inspira seus primos e primas de etnias ciganas em todo o país, ele considera que ser um dos poucos ciganos com os títulos de mestre e doutor representa a transformação social não apenas dele, mas de toda a sua família, e de muitos outros/as ciganos/as que sonham com um destino menos sofrido, e com oportunidades possibilitadas pela via do acesso e da permanência nos processos da educação formal.


“Na minha família, por exemplo, sou o primeiro com essas formações. O que difere da graduação, vez que tenho meus pais e irmãos formados, e muita gente na família também. Minha mãe foi a segunda pessoa na família a concluir o ensino superior, e a primeira foi a prima Terezinha, tudo isso no governo Lula porque antes ninguém tinha. É um orgulho imenso, uma grande satisfação, pois é muito rico a gente poder comprovar que também somos capazes de estudar, de concluir os estudos de nível superior, de trabalhar como qualquer pessoa da sociedade. Temos capacidade e inteligência suficiente para fazer qualquer coisa que uma pessoa não cigana faz”, inicia.


Duplo sentimento – O jornalista-doutor convive com o duplo sentimento gerado a partir das conquistas no universo da educação e da ciência brasileira considerando que raros são os exemplos de êxito acadêmico dentre os grupos étnicos ciganos. “É uma alegria e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade porque a gente se sente responsável para que esse conhecimento seja devolvido e estendido para outras pessoas pertencentes às comunidades ciganas. Uma das grandes metas da minha vida foi estudar para beneficiar o meu povo, levar novos conhecimentos, novas visões, quebrar estereótipos, então, é tudo nesse sentido: ao mesmo tempo que é motivo de orgulho sei que é também imensa a responsabilidade”, reconhece.


O exemplo dele é revertido em incentivo para que mais pessoas ciganas possam ocupar espaços de formação e poder. “A gente tem que incentivar as pessoas a estudar porque a educação é uma porta de entrada para ascensão social. Isto é muito comprovado, por exemplo, na minha família nenhum dos irmãos dos meus pais têm escolarização superior e posso dizer que eles são os mais bem-sucedidos porque conseguiram se tornar professores estaduais, se aposentaram nestas profissões e graças a eles, eu e a minha irmã tivemos a oportunidade de estudarmos, algo que poucos primos conseguiram, infelizmente”, conta.


Inspiração –A história do Aluízio é uma das maiores inspirações na minha trajetória de jornalista, aprendiz-pesquisador e de ativismo em prol das lutas dos Povos Ciganos. Ele e a Claudia Nunes - a cigana estudada, estiveram na minha Banca de Qualificação do curso de mestrado em andamento no PPGEISU/IHAC-UFBA, realizada em julho de 2021. Um momento inesquecível e emocionante que reuniu pela primeira vez três pessoas de etnias ciganas em uma só banca de avaliação da Pós-Graduação.


Questionado sobre os motivos pelos quais a sua trajetória inspira outros/as estudantes ciganos ele reflete: “Porque as pessoas ciganas não estão acostumadas a ver outros ciganos estudados, com nível superior, mestrado e doutorado. Mais do que obter esses títulos sua importância se dá na medida em que demonstramos para as pessoas que somos igualmente capazes. Vejo que nós ciganos somos invisibilizados nos estudos acadêmicos, somos silenciados, ou quando têm estudos científicos eles são estereotipados, ou seja, conteúdos que reforçam a colonização, generalizam. Outrora quando são bons, por exemplo, vão em uma comunidade específica pesquisada e generalizam, como se todos fôssemos do mesmo jeito, sendo que sabemos que somos diversos, temos várias etnias, múltiplos grupos com línguas diferentes, costumes díspares, então, acredito que a ciência brasileira deve dar esse passo de abertura plena, e acabo inspirando por ter conseguido romper padrões, por exemplo com o estereótipo de que os ciganos não gostam de estudar, de que não vamos para a escola porque não queremos. Nesse sentido é uma honra servir de inspiração para outros ciganos e ciganas ocuparem quaisquer espaços que desejarem”, orgulha-se.


Durante os cursos de graduação que realizou ele disse que não teve maiores problemas, recorda que foi muito bem tratado em todos os momentos, sendo bem aceito por professores e colegas. “O fato de ter a pele branca, me vestir tradicionalmente apenas em festas, reuniões e casamentos, me deu uma passibilidade que outras pessoas ciganas na maioria das vezes não têm”, explica. Após ingressar no doutorado na FIOCRUZ/RJ e de conquistar prêmios em reconhecimento pela pesquisa que apresentou, ele obteve repercussão e visibilidade, por conseguinte, seu nome ganhou ascensão nacional. Contudo, aponta fatores determinantes que culminam em desigualdades na escolarização dos Povos Ciganos. “Há excessiva desigualdade. Contando nos dedos não chegamos em cinco pessoas ciganas com título de doutorado no Brasil, sendo que somos com certeza mais de 500 mil pessoas, então, já por aí se percebe uma ampla desigualdade”, evidencia.


Desigualdades Entre os motivos para as notáveis desigualdades nos processos formativos dos Povos Ciganos, ele atenta para o fato de que a escola e a Universidade, de maneira geral, “não foram, e não são preparadas para nos receber! Nos currículos escolares e acadêmicos não constam as nossas culturas, não contém as nossas histórias, ou seja, nós somos invisibilizados nos livros e literatura, e assim os professores não conhecem as nossas culturas, não são formados para isso. A Universidade também desconhece e só agora está se abrindo para os Povos Ciganos, porque até então há dez anos atrás ao procurar estudos ciganos não se encontrava praticamente nada, era muito raro. E a gente sabe que a ciência foi colonizadora, foi esterotipadora, ela invisibilizou quando muito explorou os Povos Ciganos, isso a ciência clássica, hegemônica, positivista, o que corrobora com fato de pouquíssimos ciganos alcançarem a formação em nível superior, vez que a maioria não consegue sequer ingressar ou terminar o ensino médio, nem ensino fundamental, muitos jovens não estudaram, o índice de analfabetismo é muito maior entre os ciganos, de evasão escolar também, apesar de não termos estatísticas oficiais, eu tenho convicção disto. E no caso das comunidades que continuam nômades é ainda pior porque as escolas não têm a menor preparação para recebê-los, não aceitam o nomadismo, não conseguem fazer os processos de transferência. Além disso, muitos de nós têm problemas com documentação, como registros, comprovantes de endereço, por exemplo, uma das principais exigências, então uma série de questões que envolvem a escolarização formal dos ciganos precisa e deve ser revista para serem melhoradas, e readequada as nossas reais necessidades, para que sejam superadas e que os/as estudantes ciganos possam chegar até a Universidade”, discursa.



Sugestões para a transformação - Em sua análise, Aluízio tece sugestões para a transformação da realidade evidenciada. “A educação é institucionalmente racista e mudar isso requer um trabalho gigante. Primeiro deve-se reformar os currículos escolares, construir e incluir material sobre ciganos, incluir a gente nos livros de história, um trabalho robusto para que consigamos uma educação formação equiparada e adequada, ou seja, tem que ser uma educação equitativa e intercultural voltada para todos os Povos Ciganos. Em Portugal por exemplo tem algo interessante que são os mediadores sócioescolares que atuam onde tem estudantes ciganos nas escolas, eles são contratados unicamente para fazer essa mediação. Seria muito interessante termos no Brasil mediadores/as ciganos/as para atuarem nessa intermediação sobretudo na educação básica. A escola precisa mudar estruturalmente para que o acolhimento dos estudantes ciganos seja realizado de maneira no mínimo respeitosa, contemplando as diferenças culturais que nos envolve, para que possam chegar ao ciclo universitário”, defende.


Ensino Superior - Com inúmeras participações em eventos acadêmicos, congressos, encontros, seminários, e outras atividades acadêmicas relativas aos Povos Ciganos ela observa que as universidades possuem espaços e grupos de pesquisa que acolhem as pessoas ciganas muito bem, todavia a constatação não representa a maioria. “Apenas cerca de 20 % dos profissionais universitários promovem essa inclusão. O restante não é tão receptivo assim”, estima. Ele acrescenta que “Os ciganos que usam costumeiramente as vestes sofrem abjeções em todos os espaços institucionais, no trabalho, na rua. São olhares enviesados, atravessados e preconceituosos de racismo. As pessoas veem e já associam a ideia errada de que ciganos roubam, que não dá para confiar e outros absurdos, e isso ocorre sim na Universidade, esta que ao lado da Literatura, da Ciência, da mídia e dos produtos simbólicos foram responsáveis por criar e manter esses estereótipos, então é difícil quebrar isso dentro da Universidade - é um trabalho de formiguinha que estamos fazendo aos poucos junto a esses grupos e professores que são mais abertos e que compreendem as nossas realidades e especificidade. As áreas da Antropologia, Sociologia e da Educação tiveram papéis fundamentais nesse processo, sendo os campos do conhecimento que mais realiza estudos acadêmicos abertos, críticos e inovadores em relação à pessoas ciganas”, analisa.


Aluízio afirma que o é essencial que os estudos com Povos Ciganos retornem os conhecimentos absorvidos na Universidade para as comunidades de pertença. “Porque historicamente são os grupos que já foram afastados, marginalizados, e aí vai a ciência mais uma vez reproduzir essa exclusão? Não oportunizar horizontalidade e a escuta para as vozes ciganas? Os estudos acadêmicos têm que oferecer retorno para os pesquisados. Como cientistas temos de ter este compromisso, o dever de mostrar de que lado nós estamos. Essa coisa de neutralidade científica não existe, nós não somos neutros, ninguém é neutro, todo mundo tem uma formação, uma ideologia, alguma coisa por trás que nos orienta”, defende. Nesse sentido, ele acredita que é de extrema importância que os estudos acerca dos Povos Ciganos sejam realizados por ciganos e que se tenha algum retorno efetivo. “Afinal de contas são as pessoas mais interessadas no assunto, as que mais conhecem, mas sabem do que falam e vivem, as que têm as experiências vivas. Eu sei que a ciência não consegue mudar uma realidade, mas ela pode interferir na realidade, assim como a realidade interfere na nossa pesquisa”, ilumina.


Corroborando com os apontamentos dos/as pesquisadores/as não ciganas acerca das qualidades escolares evidenciadas nos estudantes de etnias ciganas, ele profere:Nós ciganos temos uma inteligência que por vezes as pessoas não ciganas não as possuem que é a ciência de você conseguir sobreviver excluído, de sempre ser criado com muita gente, conviver com famílias numerosas... a gente tem facilidade de relacionamento, destreza de conversar, dialogar e se articular - fatores que grande parte das outras pessoas não têm, até porque não tiveram as nossas experiências de vida e de mundo, não tiveram acesso aos nossos conhecimentos e saberes próprios, genuínos, então acho que os ciganos têm muito a ensinar, as culturas ciganas abarcam sabedorias ancestrais que precisam chegar até a Universidade. Por exemplo, a gente não coloca dinheiro e poder à frente das pessoas, jamais agirmos assim, algo comum nas sociedades e instituições. Nós somos muito mais humanizados no sentido de colaboração, coletividade, empatia e solidariedade - fatores preponderantes em nós e que a gente não costuma perceber em outras comunidades”, finaliza.


O cigano-doutor Aluízio de Azevedo Silva Júnior reivindicou reiteradas vezes a integração dos Povos Ciganos nas políticas afirmativas junto à UFMT – instituição em que concluiu a graduação, sem êxito.


“CIGANA E DISSIMULADA! ”


“A supremacia branca tem feito muito estrago nesse mundo. A

constante convivência com a real categoria do Outro. A outreridade, a

distinção. A partir disso, o lugar do cigano, é lugar nenhum. ”

(SARA MACÊDO, 2021, p.109)


Sara Macêdo Kali, 25 anos, é cigana estudante da etnia calon. Graduada em Direito e mestra em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é ativista das lutas ciganas, atuando no Coletivo @ciganagens [https://www.instagram.com/ciganagens/] – composto por ciganos/as "artevistas" que desenvolvem materiais didáticos acerca das culturas dos Povos Ciganos na rede social Instagram, na qual adotou ironicamente o pseudônimo de "Cigana e Dissimulada".

Moradora da comunidade cigana de Pontalina, em Goiás, ela se divide entre as cidades de Trindade e Goiânia. Sara Kali aponta os principais desafios para a escolarização das crianças, jovens e adultos ciganos da sua família, dentre esses, o de conseguir escolas que aceitassem a dinâmica de mudanças frequentes, ou seja, a itinerância, considerando que no caso de sua família e primos estiveram presentes em contextos rurais durante grande parte da vida, situações que refletem em ausência nos espaços universitários. “Eu e meu irmão somos os únicos que chegamos a morar na capital e cidade com muito asfalto. As escolas rurais, por incrível que pareça (por conta do estereótipo da roça) eram muito melhores no sentido de inclusão do que as da cidade, pois já funcionava na dinâmica de atender uma comunidade local. Isso muda tudo. Acho que o principal desafio era permanência para mim, a distância para minha mãe, e completa ausência para os meus avós, que não sabem ler e escrever até hoje, pela forte dinâmica de trabalho braçal”, inicia.


Com bom humor, ela comenta a lida com os processos burocráticos educativos (matrículas, transferências, documentos) na família: “Isso é até uma graça que fazemos lá em casa. Meu avô é registrado com 5 anos a mais do que tem porque se aproveitava da ida a cidade para registrar todo mundo de uma vez da família, e com mais idade para poder ter alguns direitos de transitar com animais de criação e vender. Meu avô sabe o ano que nasceu porque foi o ano que matou uma novilha muito grande (raridade). Os processos burocráticos, a partir dessa história, são um trabalho de Sísifo (viver ou suprimir), é a gente tentando tirar documentos do ar. Eu mesma, já de outra geração, tenho alguns documentos ilegais. E sobre transferência, minha mãe que tem mais pavor disso, pois sempre dificultou fazer laços com gajons (não ciganos)”, comenta.


Para ela, as escolas e as universidades de maneira geral estão distantes de compreender as especificidades das vidas ciganas. “É um completo limbo, não sabem de nada mesmo convivendo diariamente... Quem nunca teve um acampamento cigano passando pela cidade? Estamos tão perto e tão longe. Acho que não fazem questão de saber da gente. Eu nunca ouvi falarem de ciganos em aula alguma, nem na escola muito menos na Universidade”, afirma.



No que tange às tradições ciganas como o nomadismo e as vestes, ela afirma não serem respeitadas pelas escolas, faculdades e universidades. “Nossa, eu ainda tenho medo de passar na porta da faculdade que formei. Meu primeiro ano eu não tinha roupas aceitáveis pelos gajons e não tinha laços para poder vestir minhas roupas de calin (cigana) e enfrentar de cabeça erguida. Cidade grande é grande mesmo, e ser sozinha com seus costumes não existe. Então a supressão é quase sempre lei. Infelizmente se somos austeros somos monitorados. A itinerância nem se fala, é quase a mesma coisa que ser pessoa em situação de rua para essas instituições”, compara.


Sara Kali analisa que o racismo contra ciganos é enfeitado”, pois “somos bonitos, mas ‘dissimulados e não confiáveis’. Eu assumi isso como minha ironia: ‘cigana e dissimulada! ’ no meu primeiro ano de faculdade. Tenho saudade das escolas rurais da comunidade, do tempo nesses lugares. E as piadas são um ciclo sem fim, já teve professor em aula mandando eu abrir a boca para mostrar se meus dentes ‘prestavam’ ou eram de ouro. Já teve uma conversa que passou pela faculdade também de que eu não tomava banho, ou que bancava meus estudos sendo trabalhadora sexual”, denuncia. E diz mais: “mesmo com a galera mais progressista sinto que sou muito utilitária para eles. Não sabem das nossas tradições e parece que nem fazem questão de saber. A assimilação é regra. Se você está no ‘mundo gajon’, se adapte! A premissa é que o mundo é todo deles. E aqui em Goiás tem cigano a rodo. Mas a subalternização é regra, não sou levada muito a sério nos espaços acadêmicos, só depois de demonstrar 10 metros de proficiência. Gajon que aprendeu comigo tal conteúdo ganhou bolsa internacional. É tudo assim...”, lamenta.


As desigualdades na escolarização formal dos povos ciganos são perceptíveis, conforme observa Sara. “É muito triste passar por um processo de aprendizado que não falam de tu. É limbo. Sem mencionar toda a problemática que vejo nesse tipo de aprendizado chamado de formal que é o cerne do problema para minorias serem subalternizadas assim. Acho que para ciganos é inexistência! Sempre tratam a gente como encrenqueiros nas escolas; o Chib (nossa língua) é muitas vezes proibido e para itinerantes é quase impossível se manter na estrada estudando. As escolas não toleram muitas mudanças, existem limites e isso impacta nos ciclos seguinte, no (não) acesso ao ensino superior. Se o patamar não é igual, não há o que se falar em igualdade de oportunidades”, ajuíza


Perguntei para Sara: como os conhecimentos adquiridos nas escolas e universidades retornam para a comunidade cigana? Reflitamos a surpreendente resposta: “Olha, essa pergunta é interessante porque estava lembrando de quando entrei na faculdade e meu avô perguntou se o que eu ia fazer servia para ajudar alguém. É óbvio que nunca esqueço disso. Mas olha, não volta não. O conhecimento formal é mais feito para o mundo gajon. Eu faço um esforço individual para que volte. Converso com eles sobre. Minha avó já aprendeu a ler. Mas esse conhecimento mais formal ele é simplista, não dá conta da complexidade da vida e de nossas comunidades. Fico pensando que nem é bom voltar tudo para muitas coisas não se acabem. Mas, por exemplo, sou a advogada da família, isso é alguma coisa”, conclui.


A UFG – instituição em que a cigana Sara Macedo Kali conquistou o título de mestra em Direito Agrário não considera os Povos Ciganos em suas políticas afirmativas de acesso. Ela está a pleitear acesso ao doutorado.

O QUE DIZEM O MEC, MMFDH e UNIVERSIDADES ACERCA DA RELAÇÃO POVOS CIGANOS X ENSINO SUPERIOR?

Procurado, o Ministério da Educação (MEC) por mais uma vez não retornou aos questionamentos apresentados relacionados à temática dos Povos Ciganos – ações afirmativas e Universidade.

Ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) perguntei se promovem ações de incentivo para que as universidades abram vagas - ações afirmativas/cotas para acesso de estudantes ciganos/as; se consideram importantes as políticas ações afirmativas para os Povos Ciganos nas universidades; o que tem sido/foi feito pela gestão atual da pasta em prol da ampliação de oportunidades para ciganos no ensino superior brasileiro, e se há apoio para a implementação de políticas de acesso e permanência nas Universidades para os Povos Ciganos.


O MMFDH reiterou os termos do Anexo I do Decreto nº 10.883, de 06 de dezembro de 2021, que lista as competências da pasta em relação as políticas e diretrizes voltadas à promoção dos direitos humanos, incluídos, entre outros assuntos, os direitos da população negra e das minorias étnicas e sociais:


I - assessorar o Ministro de Estado na formulação, na coordenação e na articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade étnico-racial;

II - formular, coordenar e avaliar as políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade étnico-racial e da proteção dos direitos de indivíduos e populações étnico-raciais, com ênfase nas populações quilombolas, ciganas, negra e estrangeiras de perfil étnico-racial afetados por ações de discriminação étnico-racial e outras formas de intolerância;

III - articular, promover e acompanhar a execução dos programas de cooperação com organismos e organizações nacionais e internacionais, públicos e privados, voltados à implementação da promoção da igualdade étnico-racial;

IV - propor a adequação e o aperfeiçoamento da legislação relativa aos temas de sua competência;

V - formular, coordenar e acompanhar as políticas transversais do Governo federal para a promoção da igualdade étnico-racial;

VI - planejar, coordenar e avaliar a execução do Programa Nacional de Ações Afirmativas;

VII - promover e acompanhar a implementação das legislações de ações afirmativas e a definição de ações públicas que visem ao cumprimento de acordos, de convenções e de outros instrumentos congêneres firmados pelo Estado brasileiro, nos assuntos relacionados à promoção da igualdade e ao combate à discriminação racial e étnica;

VIII - articular e acompanhar a execução das políticas públicas desenvolvidas em favor das comunidades indígenas, em articulação com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Fundação Nacional do Índio - Funai; e

IX - implementar, formular, apoiar, articular e avaliar políticas públicas para promoção da igualdade étnico-racial, considerada a perspectiva da família, o fortalecimento de vínculos familiares e a solidariedade intergeracional.


Entretanto, o MMFDH não especificou quais prerrogativas da supracitada lista foram efetivamente executados, e nem como essas atribuições são concretizadas na prática. Contudo afirmam que estão a buscar articulações junto aos Órgãos Federais para a formulação, coordenação e acompanhamento de políticas transversais a pasta. “Mas esclarece que as competências no âmbito da educação são atribuições do Ministério da Educação”, conforme segue:


Art. 1º O Ministério da Educação, órgão da administração pública federal direta, tem como área de competência os seguintes assuntos:

I - política nacional de educação;

II - educação infantil;

III - educação em geral, compreendidos o ensino fundamental, o ensino médio, o ensino superior, a educação de jovens e adultos, a educação profissional, a educação especial e a educação a distância, exceto o ensino militar;

IV - avaliação, informação e pesquisa educacional;

V - pesquisa e extensão universitária;

VI - magistério; e

VII - assistência financeira a famílias carentes para a escolarização de seus filhos ou dependentes.

Parágrafo único. Para o cumprimento de suas competências, o Ministério da Educação poderá estabelecer parcerias com instituições civis e militares que apresentam experiências exitosas em educação.


A Secretaria Nacional assinala que “vem atuando em outras frentes visando a promoção da igualdade de oportunidades e acesso a políticas públicas dos Povos Ciganos”, porém listou apenas ações generalizadas voltadas aos povos de comunidades tradicionais de modo geral, sem especificar quais se aplicam aos Povos Ciganos. A título de exemplos vejamos algumas medidas citadas:


  1. Publicação do Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica, disponibilizado para escolas, dependencias públicas e população em geral;

  2. Cartilha "Discriminação étnico-racial", e como identifica-la e combate-la"; visando o combate a discriminação étnico-racial;

  3. Curso: "Políticas étnico-raciais: conceitos e métodos na superação do racismo e desigualdades" disponível no link: https://www.escolavirtual.gov.br/curso/417. O curso é gratuito e pode ser realizado por gestores municipais para propagação da informação, ou pode ser indicado para que professores da rede municipal façam, para terem subsídios mais robustos para trabalhar a temática em sala de aula;

  4. Guia orientador para a atenção integral à saúde do povo cigano, com informações das especificidades culturais desse público, e como atende-lo de maneira culturalmente adequada;

  5. Webinário Direitos Humanos e Povos Ciganos. Evento realizado virtualmente com informações de políticas voltadas para povos ciganos com palestrantes do Ministério da Educação, Ministério da Saúde, e deste Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos;

  6. Edital de Chamamento Público nº01/2021, cujo objeto é a capacitação em empreendedorismo e cooperativismo no âmbito do Projeto “Oportunidade para Todos”, voltado aos povos e às comunidades tradicionais (PCT) dos municípios de Atalaia no Norte, Itamarati, Ipixuna, Santa Isabel do Rio Negro, no estado do Amazonas, e do município de Jordão no estado do Acre.

  7. Edital de Chamamento Público nº01/2022, que visa à seleção de organização da sociedade civil interessadas, cujo objeto é a execução do Projeto “CARAVANA DA ECONOMIA CRIATIVA NO MARAJÓ”, voltado aos povos e às comunidades tradicionais (PCT) dos municípios de Afuá, Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure, no estado do Pará.

Por fim, o MMFDH apontou para a existência dos canais do ministério direcionados a realização de denúncias de violação de direitos, disponíveis em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/ondh, que “devem utilizados pelos povos ciganos para relatar casos de discriminação e violência”.


UNIVERSIDADES

Com o objetivo de compreender os motivos pelos quais as universidades UFMT, UFS e UFG – instituições em que personagens desta reportagem estudaram - não compreendem os Povos Ciganos nas políticas afirmativas para acesso, enviei os seguintes questionamentos:

Quais dados relacionados aos estudantes de etnias ciganas a Universidade possui?;

A Universidade inclui os Povos Ciganos nas políticas de ações afirmativas? Caso não, por que?;

A Universidade inclui a temática dos povos ciganos nos eventos de extensão universitária?;

A Universidade possui projetos/ações/políticas que dizem respeito a inclusão de jovens e adultos estudantes de etnias ciganas em suas ações afirmativas e demais políticas de reparação?;

De que forma essa Universidade trabalha a perspectiva do Direito Humano da escolarização formal – superior – de jovens e adultos de etnias ciganas?;

Existem prerrogativas/orientações / documentos / resoluções direcionadas para que a Universidade acolha estudantes ciganos, considerando as especificidades de suas tradições e culturas?;

Essa Universidade trabalha, sugere, e orienta os/ professores/as quanto à importância de trabalhar os direitos, as histórias e culturas dos povos ciganos em seus currículos e/ou projetos pedagógicos, eventos de extensão?;

A Universidade considera importante retratar as culturas ciganas para que compreendam as especificidades desses povos?;

A Universidade abre vagas de ações afirmativas/cotas para ciganos na graduação ou pós-graduação? Caso não, por que?;

A Universidade considera importante as ações afirmativas para os povos ciganos?;

O que tem sido/foi feito pela gestão atual da Universidade em prol da escolarização formal dos povos ciganos para acesso e permanência ao superior?;

A Universidade considera os processos de escolarização dos povos ciganos igualitários?;

A Universidade acredita haver desigualdades na escolarização formal dos povos ciganos, bem como para a garantia de acesso e permanência ao ensino superior?;

A Universidade incentiva políticas de acesso e permanência para os povos ciganos? Como?.

Existe expectativa de implementação de políticas de ações afirmativas - cotas para povos ciganos nessa Universidade?


Para ampliar o debate estendi essas indagações para outras universidades de destaque no cenário da educação superior nacional, a exemplo da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Parte dessas universidades sinalizaram que estão a providenciar respostas. Acrescentarei tão logo as receba.


Respostas


A Pró-Reitora de Graduação da UFRJ, Gisele Viana Pires, confirmou em entrevista que atualmente o modelo de cotas adotados pela instituição para acesso aos cursos de graduação não compreendem os Povos Ciganos nomeadamente, vez que seguem a política de cotas em conformidade com o estabelecido no Sistema de Seleção Unificada (SISU). Contudo, a gestora declarou que a UFRJ "é sensível ao tema e que nesse sentido mantém abertura para o diálogo". Gisele Viana Pires destacou ainda que o processo para inclusão dos Povos Ciganos nas políticas afirmativas encontra menos barreiras na Pós-Graduação, por sua notada autonomia de gestão.


Já a USP, apesar de ter uma “Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento“, confirmou que “não dispõe de uma política de ação afirmativa voltada para o povo cigano”, e não respondeu se há discussões nesse sentido ou expectativas de inclusão dos Povos Ciganos nas suas políticas de cotas.


A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) informou que “não temos informações consolidadas e nem previsão de um trabalho dessa natureza, infelizmente.


UFMT, UFS e UFBA ainda não retornaram o contato.


Pró-Reitor de Ações Afirmativas da UFSB comenta a integração de estudantes ciganos/as nas cotas


A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) se manifestou através do prof. Sandro Ferreira - Pró-Reitor de Ações Afirmativas da Instituição. De acordo com as informações prestadas, neste momento 3 estudantes ciganos estão na universidade, sendo 02 no curso de medicina e um de licenciatura em linguagens.

"A UFSB, em 2014, quando inicia suas atividades, já faz um esforço grande para ter um programa de ações afirmativas que conseguisse incorporar no seu cotidiano as diversas comunidades e grupos étnicos da nossa região. Em um primeiro momento, com uma atenção maior às comunidades indígenas e quilombolas e, posteriormente, identificando outras comunidades que sofrem fortemente com situação de exclusão social, econômica, política e educacional", afirma Sandro Ferreira.

O gestor analisa que as comunidades ciganas na região sul e extremo sul da Bahia são marcadas por exclusão, violência e preconceito. "É nítida as variações econômicas dessas comunidades, com famílias com posses e outras marcadas por vulnerabilidade socioeconômica", observa. "Nesse sentido, a reserva da vaga acompanha o esforço de incluir grupos étnicos que se autodeclarem como tal e que sejam reconhecidas pelas suas lideranças. Em 2018, houve a ampliação da resolução de ações afirmativas que previa que, assim como havia uma vaga supranumerária para indígenas aldeados e para quilombolas, também tivesse para pessoas de origem cigana" justifica. Sandro Ferreira considera que os resultados ainda têm sido pequenos, porém com um efeito importante para demonstrar que a UFSB reconhece que a comunidade cigana é uma comunidade que sofre com a exclusão social e, a partir desse acesso à vaga na Universidade, garante maiores chances de mobilidade. "Há uma atenção especial também para a inclusão de mulheres ciganas, já que também se analisa a desigualdade de gênero comum dessa comunidade, mas respeitando suas características culturais próprias", finaliza.

UFMG reitera a importância das cotas em benefício dos/as estudantes ciganos/as


A UFMG afirmou não possuir dados específicos sobre estudantes pertencentes a etnias ciganas, contudo, diz que por meio do Núcleo de Estudos Sobre Populações Quilombolas e Tradicionais (NuQ), realiza estudos voltados para populações como ciganos, ribeirinhos, povos do santo, grupos urbanos afro‐brasileiros e vazanteiros, dentro de uma perspectiva interdisciplinar.


"Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a política de ações afirmativas assume particular importância propondo o desenvolvimento de um conjunto articulado de práticas acadêmicas de acolhimento, atenção e apoio aos estudantes em suas necessidades, em seu aproveitamento acadêmico e no enriquecimento de sua permanência na UFMG", diz a nota.


A UFMG considera que as ações afirmativas são definidas como políticas com o objetivo de promover grupos socialmente discriminados. "Nesse aspecto, elas não se limitam a iniciativas de reserva de vagas; possuem objetivos mais amplos de caráter compensatório e de promoção dessas populações. Essas políticas podem incidir sobre diferentes grupos sociais e étnico-raciais com comprovado histórico de discriminação e exclusão". Por fim, "a UFMG reitera a importância da política de cotas como forma de democratizar o acesso da população brasileira à universidade pública".

Pesquisadora analisa sistema de cotas e Políticas Afirmativas de Inclusão dos Ciganos no Ensino Superior das Universidades Públicas no Brasil


Regressando Lenilda D. Pérpetuo - profa. Dra. em Educação (UnB), assinala: “lutar por políticas públicas sociais afirmativas para inclusão de representantes de Povos Comunidades Tradicionais no espaço das universidades Públicas e Institutos federais é corrigir um erro histórico e devolver para essas pessoas o que historicamente lhes foi sucumbido e roubado. É devolver a dignidade humana e dar-lhes o direito de ter outros direitos garantidos, pois o direto à educação é complexo e abrange outros/outras, uma vez sendo um bem comum. Dessa forma, também amplia e passa a ser também um direito de todos /todas. A luta dos povos ciganos é legítima no que tange a seus anseios em ocupar uma vaga na educação superior".



Para essa pesquisadora, as populações buscam o reconhecimento e o espaço legítimo da educação formal dentro das instituições de educação superior na perspectiva de superar suas dificuldades e combater os racismos estruturais e epistemológicos. “O que eles anseiam é deixar registros e escrever suas próprias histórias, sem necessidade de interlocutores. Por meio de associações e parcerias com representantes, pesquisadores e ativistas das bandeiras e pautas ciganas, as comunidades ciganas do Brasil, sobretudo da Bahia, lutaram por reparação histórica de seus direitos exigindo garantia de acesso à universidade”, analisa.


Lenilda D. Perpétuo afirma perceber que já existe um movimento de professores, pesquisadores, ativistas e lideranças ciganas em prol da luta para que outras universidades do país abram as possibilidades para entrada de povos ciganos, pois a demanda reprimida existe. “Não podemos apagar da história pessoas que fazem parte do nosso patrimônio cultural. Negar a essas pessoas o direito em ocupar uma vaga nas universidades, mudarem suas vidas e levarem conhecimento científico para suas comunidades são formas cruéis de exclusões e apagamentos. Além disso, a Constituição Federal de 1988 estabelece em seu artigo 6° como direitos sociais a educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, o lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados, cultura e transporte. Outrossim traz no seu artigo a garantia dos plenos exercícios dos direitos culturais nacionais, produções e as manifestações culturais. Portanto o que constatamos que há uma distância considerável entre o que está estabelecido na lei e na sua aplicalidade. A legislação existe para garantir e estabelecer que todos/todas gozem dos mesmos direitos, mas na realidade isso não ocorre em sua plenitude”, justifica.


Em sua pesquisa, Lenilda reafirma que “ao longo da história da educação no Brasil, muitos ficaram de fora, isso acontece propositalmente para que populações periféricas, do campo, povos tradicionais e trabalhadores e trabalhadoras subalternos/as fiquem relegados dos espaços de construção científica do conhecimento e compõem o exército de reserva para composição de mão de obra barata a serviço do capitalismo, atendendo ao projeto neoliberal”, assim: “a construção de políticas públicas sociais de inclusão é uma forma de buscar corrigir erros do passado histórico, onde uma classe privilegiada elitista se apropria e explora outra classe oprimida e sucumbida dos seus direitos”.


A respeito do sistema de cotas e Políticas Afirmativas de Inclusão dos Ciganos no Ensino Superior das Universidades Públicas no Brasil, este autor, enquanto cigano estudante cotista da UFBA, mestrando em Estudos Interdisciplinares Sobre a Universidade (PPGEISU / IHAC), concedeu entrevista para o trabalho de pesquisa doutoral de Lenilda D. Perpétuo. Na ocasião argumentei o seguinte acerca da necessidade de ainda se avançar nessa discussão:


“Todos os problemas que enfrentamos durante o percurso escolar se multiplicam quando se trata do ensino superior. Começamos a ser integrados nas políticas afirmativas a partir de 2018 através da UNEB, além desta poucas o fizeram: UFSB, UEMG, e algumas encaminhando. Alguns concursos e editais passaram também a nos contemplar. Parece estar começando um movimento de partida. Mas a realidade é que isto mostra o quanto continuamos sendo discriminados. Além disto, não é possível hoje no Brasil ser nômade, viver itinerante e realizar um curso superior, temos que nos adequar, deixar as tradições e formas de vida quando concluímos o ensino médio. Muitos não querem sair e deixar nossas famílias. Mas será que se pudéssemos nos qualificar, estudar - ensino superior - e ainda continuarmos nossas vidas do jeito que desejamos e amamos, isto não poderia ser diferente? Precisa acontecer uma integração real, sermos realmente considerados em nossas multiplicidades nos editais e processos seletivos que supostamente são para nós ciganos. Mas o processo é igual, ou seja, não nos consideram enquanto donos de saberes próprios e formas de transmiti-los. Exigem uma série de coisas que não temos nos acampamentos: direcionamento para elaboração de projetos, internet e conhecimento aprofundado de tecnologias digitais, uma série de documentos com um prazo curto - todos sabem nossas dificuldades com documentos- mas parece que quem cria essas pseudo-ações afirmativas que de afirmativas pouco tem. Parece ser sempre uma via de mão única, e não dupla. Precisamos atuar para sermos integrados nas ações afirmativas de todas as IES no Brasil, pois como nossos amados povos quilombolas e indígenas, nós estamos aqui há mais de 500 anos, e também somos parte da construção histórica deste país. Ainda que muitos finjam não nos enxergarem nós resistimos e vamos lutar por nossos direitos. (Relato de ROY ROGERES, cigano Calon da Bahia, 2020).


Analisando o depoimento subscrito em conexão com o sistema de cotas e Políticas Afirmativas de Inclusão dos Ciganos no Ensino Superior das Universidades Públicas no Brasil, Lenilda D. Perpétuo nos convida a refletir:


“As críticas formuladas nas palavras de Roy Rogeres nos trazem muitas reflexões e inquietações, no que diz respeito à importância das políticas afirmativas de inclusão para populações acampadas e em itinerância, bem como a compreender que além de se abrir as possibilidades, é necessário adequar os editais para que não se tornem apenas “pseudo-ações”. É preciso garantir que eles/elas acessem e tenham condições de atenderem às exigências dos editais, compreendendo que possuem dificuldades de endereços fixos, acessos à internet de qualidade, ausência ou escassez às ferramentas tecnológicas digitais. Frente ao exposto podemos analisar que a função das políticas públicas de inclusão social, políticas afirmativas de inserção das populações ciganas nas universidades brasileiras consiste em abrir novas possibilidades para se instrumentalizarem, atuarem na construção, elaboração e reelaboração dos seus conhecimentos, realizando intervenções em suas realidades, em seus contextos sociais(PERPÉTUO, 2021, p. 143-144).




Por: Roy Rogeres Fernandes Filho


Fotos: Arquivos Pessoais/Divulgação

Esta reportagem foi realizada com apoio do 3º Edital Jornalismo de Educação (Jeduca/Itaú Social)



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