Educação após a Ditadura

Mil nações moldaram minha cara

Minha voz, uso para dizer o que se cala

Ser feliz no vão, no triz é força que me embala

O meu país é meu lugar de fala!

(Elza Soares)


Texto de Nelson Lima e Ícaro Jorge


Alguns anos após os horrores do Holocausto, o filósofo alemão Theodor Adorno escreve um texto intitulado “Educação após Auschwitz”. Auschwitz, cidade polonesa que serviu de campo de concentração nazista, é o símbolo da desumanidade perpetrada contra judeus, ciganos e homossexuais. Em seu texto, Adorno foi categórico ao dizer: “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”. A Alemanha não poderia se desenvolver enquanto país, caso não enfrentasse os germes fundamentais as condições da barbárie.





No Brasil, após a façanha golpista do 7 de setembro de 2021, é mais que evidente que precisamos enfrentar as condições sociais e políticas que permitem pessoas irem à rua pedirem a volta de um dos períodos mais tristes de sua história. Nem deveria ser preciso justificar o quão nocivo é para um país que busca firmar sua democracia, um movimento que peça o fechamento da sua corte jurídica suprema. Nem deveria ser preciso justificar que uma ditadura representa a barbárie.


	O que fizemos nos últimos 38 anos? Qual a memória construída da ditadura? Quais metas educacionais foram propostas para combater o germe autoritário que permeia nosso país?

Não deveria ser preciso justificar os perigos civilizatórios que representa um governo que a todo momento flerta com o passado antidemocrático brasileiro entre 1964-1984. A educação estará corrompida caso perca um de seus sentidos primordiais: o de propor continuamente uma autorreflexão crítica. Deste modo, é fundamental uma inflexão em direção aos sujeitos, compreender os condicionantes que os levam a querer reviver um passado de pouca liberdade e violento.

Esta análise não se coaduna apenas em elementos discursivos, mas na ação cotidiana e no projeto político de educação que o atual governo aponta para o Brasil. Nesse contexto, é importante relembrar o modelo educacional implantado no período ditatorial brasileiro, apresentado por Valle;Ruschel (2009) como um sistema de ensino regulado. Como apontado:

“A Reforma do Ensino de 1º e 2º Graus (Lei nº 5.692/1971) estabeleceu um novo ordenamento para os sistemas de ensino: o 1º grau, resultante da fusão entre a escola primária e o ginásio, passou a ser obrigatório para as crianças de 7 a 14 anos; o 2º grau tornou-se profissionalizante, visando eliminar a dualidade que diferenciava a "educação de grau médio".” (VALLE;RUSHEL, 2009. pp. 191 )

Focado no setor produtivo, essa reforma apresentava a educação apenas como ferramenta de profissionalização, abdicando todo o processo de elaboração crítica e emancipatória. A atual reforma do ensino médio, intitulada pelo atual Governo Federal, se assemelha muito às bases educacionais que priorizam a suposta garantia da profissionalização em contraponto a um ensino crítico.

Para o baiano Milton Santos, a discussão sobre os objetivos da educação é fundante na construção de um país que queremos formar. Os alicerces desses objetivos devem buscar a convivência harmoniosa, a garantia da solidariedade social exercida como um anteparo às tentações da barbárie. Deste modo, esses objetivos devem combater o pragmatismo triunfante do “salve-se quem puder”, este que forma “deficientes cívicos”, nas palavras do educador.

Teremos eleições este ano, somos convocados (as) a decidir quais políticas queremos para os próximos anos. Qual o projeto de país queremos construir? Se pensarmos em reconstrução de cidadania e perspectiva de futuro, será necessário quebrar o pacto do silêncio. Romper com as lógicas coloniais da compreensão sobre política, economia, desenvolvimento e progresso.


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